Férias: crianças com todo o tempo deste mundo e desta vida, livres para serem crianças.
É tempo de casa dos avós, de ver os tios e tias, primos e primas. Tem mais quintal, piscina, grama, chuva, sol. Sorveteria às 10h da manhã? Sim. Mas antes do almoço? Sim, e depois do almoço, também!
A cada minuto uma brincadeira, uma descoberta – férias concede o tempo para viver, para contemplar, para saborear.
O primeiro cenário é esse aqui: a brincadeira é fazer comida.
– O vovô está esperando!
– Hmmm que delícia!
Pega panelinha, pega faquinha, garfinho, colher.
Esse é meu, esse é seu e eu também quero esse.
De vez em quando aparece uma disputa e, em geral, logo as crianças se resolvem, assim, sozinhas, entre elas.
A lista de ingredientes: tem grama, tem pedra, terra.
– Ali tem folha, tem florzinha amarela e aquela roxa também…
– Eu vou pegar, mas só as que estão no chão!
– Não arranca! Tem água?
– Tem!
Abre a mangueira. Oops, espirrou um pouco!
– Bibi, o que falta?
– Ali tem “cocomelo”!
Eu insisto – “Cocomelo”, Bibi?, diante da menina que acabou de completar 3 anos.
– É, “cocomelo”! Não é cocô, é “co-co-me-lo”, entendeu? – aqui a Bibi me mostra, com gracejos, que percebe o equívoco nas sílabas.
– Entendi. Tá pronto? Leva pro vovô.
Corta a cena: vamos para o consultório. Aqui tem outra Bibi, que também acabou de completar 3 anos e a família está preocupada com a fala – ela fala pouco, não dá pra entender o que ela diz.
Bibi brinca um pouco, mais quietinha, a mãe comenta que vai leva-la para tomar picolé mais tarde. Eu pergunto “você vai tomar picolé de que?” e ela responde que “cocolate”. Eu retomo a fala dela na minha fala e digo: “de ‘cocolate’?” E esta Bibi apenas concorda, sem tentar nenhum estranhamento ou tentativa de de correção.
Vejam: a troca é a mesma. O som da sílaba “co” contamina a sílaba seguinte e a palavra formada se entende, mas não é a palavra alvo – o que pode causar uma confusão.
Na primeira cena, se trata de uma criança que está em plena aquisição de fala e de linguagem – tudo vai bem. Na cena seguinte, se trata de uma criança com impasses na aquisição e o efeito causado no outro é de que, de fato, algo não vai bem. Me explico:
Quando a Bibi diz “cocomelo”, ao invés de cogumelo, logo se escuta na minha fala e percebe o erro que cometeu. Ela ainda não pode dizer co-gu-me-lo, embora possa dizer outras palavras com g, como gato e o nome do seu próprio gato – o “manguinha”.
É esperado que crianças nesta idade cometam essas trocas e que realizem essas contaminações. Se você que me lê tem filhos, talvez se lembre de como muitas crianças, ao tentar dizer ‘pipoca’, neste início de vida falante acabam dizendo ‘picoca’.
O que diferencia a primeira Bibi da segunda é a escuta para a própria fala e a tentativa de dizer diferente, de outro jeito.
Enquanto a Bibi, no jardim, tenta me explicar que “não é cocô”; no segundo cenário que descrevi, a criança não percebe um mal-entendido na sua fala e também não identifica esse mal-entendido na fala do outro (no caso, eu, a fonoaudióloga). Assim, se Bibi no consultório não se dá conta do mal entendido, não tem o que tentar falar diferente.
Importante esclarecer aqui que “escuta” para a própria fala não se trata da audição propriamente dita: as duas crianças ouvem perfeitamente bem, seus pequenos ouvidos e sistemas auditivos estão funcionando e garantindo que elas escutem.
Ambas estão na linguagem, podem dirigir-se ao outro através da fala e compartilhar significantes e significados com palavras da língua. Ambas compreendem o que lhes é dito, acompanham letras de músicas que conhecem quando eu interrompo.
Aquisição de fala e de linguagem é assim: um jogo de fala sobre fala, de linguagem sobre linguagem.
Essa newsletter é pra falar disto, sob a perspectiva a partir da qual eu entendo linguagem e fundamento todo o meu trabalho, que é a abordagem linguístico-discursiva, denominada Clínica de Linguagem (Arantes, 2019). Sobre este solo teórico, a avaliação e a intervenção se alicerçam no diálogo e no brincar, assumindo que a aquisição de linguagem se dá através da relação com o outro, e da escuta e do efeito que a nossa fala provoca na criança e vice-versa.
Logo, a primeira Bibi dispensa um trabalho de linguagem, ao contrário da segunda Bibi, para quem é imprescindível um espaço de escuta clínica para a sua fala em que se articule a brincadeira simbólica e a fala.
Te convido a seguir comigo, me contar o que te intriga quando escuta suas crianças e eu, do lado de cá, vou compartilhando como as crianças entram neste mundo-tesouro de palavras e de significados!


